O mercado global de café está cada vez menos exposto apenas a clima, safra e preço em bolsa.

Hoje, a competitividade do setor também depende diretamente da geopolítica, da energia, do custo logístico e do acesso ao crédito.

A recente escalada de tensão no Oriente Médio reacendeu esse alerta: A alta do petróleo, os riscos no Estreito de Ormuz e a criação de sobretaxas emergenciais por armadores elevaram o custo de movimentar mercadorias e aumentaram a instabilidade das cadeias internacionais.

Para o café, isso é especialmente relevante.

O Brasil continua como peça central do abastecimento global, com produção estimada em 65 milhões de sacas em 2025/26, enquanto as exportações brasileiras para 2025/26 foram projetadas em 40,75 milhões de sacas, após volumes recordes no ciclo anterior.

Ao mesmo tempo, a ICO informou que as exportações globais de café em janeiro de 2026 subiram 13,7% na comparação anual, mostrando que o fluxo internacional segue forte, e justamente por isso fica mais sensível a choques logísticos e financeiros.

O problema é que, em um ambiente de stress marítimo, o custo do café não sobe apenas por causa do frete.

A Maersk anunciou aumentos emergenciais ligados ao Estreito de Ormuz e também uma Emergency Bunker Surcharge (EBS) global, associada à disrupção no combustível.

Em paralelo, a própria Coface alertou que a escalada regional amplia risco inflacionário, pressiona cadeias de suprimento e pode elevar custos de transporte e financiamento em vários setores.

Na prática, isso muda a lógica comercial do café.

O setor convive com volatilidade de preço, sazonalidade, câmbio e sensibilidade climática. Quando entram no jogo fatores como EFS, EBS, War Risk, prêmios maiores de seguro, congestionamentos e maior cautela no crédito comercial, a formação de preço da exportação fica muito mais complexa.

O exportador passa a revisar margens com mais frequência, o importador tende a ser mais conservador, e o custo financeiro da operação ganha peso adicional.

Essa pressão ocorre num momento em que o Brasil ainda lida com efeito de menor disponibilidade exportável em relação ao ano recorde anterior, apesar de seguir com forte protagonismo global.

Outro ponto crítico é o efeito indireto do petróleo sobre a cadeia interna.

O governo brasileiro revisou ligeiramente para cima sua projeção de inflação de 2026 após o choque no petróleo, e também zerou tributos federais sobre diesel para tentar conter os efeitos domésticos. Isso importa para o café porque diesel impacta transporte rodoviário, custo operacional, movimentação até porto e competitividade da originação.

Em cadeias intensivas em logística como a cafeeira, qualquer oscilação relevante em combustível acaba se espalhando por toda a operação.

E o mercado de café vinha de um período de forte sensibilidade a preços.

A Reuters reportou que as exportações brasileiras de café atingiram valor recorde de US$ 15,6 bilhões em 2025, mesmo com queda de volume, o que mostra como preço alto e oferta apertada alteraram o equilíbrio do setor.

Também destacou que os preços do canephora e do arábica haviam atingido níveis historicamente elevados antes de recuarem, mas ainda permaneciam acima dos padrões históricos.

Isso significa que o setor entrou em 2026 ainda num ambiente de preço elevado e maior exposição a risco de margem.

Nesse contexto, a crise logística internacional afeta o mercado de cafés em pelo menos cinco frentes.

1. Pressão sobre a margem de exportação
O café pode até manter demanda firme, mas sobretaxas emergenciais, bunker adicional, seguro e instabilidade de rota corroem rentabilidade de contratos fechados sob premissas logísticas mais estáveis.

2. Maior complexidade na precificação
Não basta mais olhar Nova York, Londres, câmbio e diferencial. O exportador precisa incorporar risco de combustível, rota, seguro, crédito e potencial atraso operacional na formação de preço.

3. Alongamento de lead time e maior risco operacional
Sempre que estresse em rotas estratégicas, o mercado passa a operar com mais cautela, mais custo de contingência e maior atenção à disponibilidade de equipamento e navio. A experiência recente em outras cadeias brasileiras mostra que atrasos portuários, inspeções e custos extras podem rapidamente afetar competitividade.

4. Crédito comercial mais seletivo
Em períodos de maior risco global, seguradoras, financiadores e compradores tendem a rever limites, prazos e apetite de crédito. Mesmo sem um bloqueio generalizado, a simples piora da percepção de risco encarece a operação e muda o ritmo dos negócios. Isso está em linha com os alertas da Coface sobre fragmentação, inflação e maior cautela financeira em ambientes geopolíticos instáveis.

5. Valorização de gestão de risco e inteligência logística
No café, origem forte não basta. Vence melhor quem integra comercial, hedge, logística, crédito e relacionamento com clientes de forma mais rápida e coordenada. Num mercado global estressado, eficiência de execução virou vantagem competitiva real. A própria leitura da Coface é que o comércio global segue resiliente, mas muito mais volátil.

A mensagem central para o setor cafeeiro é clara: o café continua sendo um produto global de alta relevância, mas a exportação está ficando mais exposta a fatores que estão fora da lavoura e fora da torrefação. O risco agora também está no bunker, no seguro, no crédito, na rota e no tempo de trânsito. E isso altera não o custo de vender, mas a capacidade de entregar com previsibilidade.

Conclusão

A crise do petróleo e da logística marítima internacional está redesenhando o mercado de cafés.

O impacto vai além da alta pontual de frete: ele alcança a formação de preço, o capital de giro, o crédito à exportação, o planejamento comercial e a competitividade de toda a cadeia.

Para quem atua com café, o desafio deixou de ser apenas produzir bem, comprar bem ou vender bem.


Agora, também é preciso embarcar bem, financiar bem e proteger bem cada operação.

 

 

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